
de Agressão




Figura feminina, sem título, de Stella Albuquerque.
Parque Eduardo VII, Lisboa
Como a arquitectura não é só estilo e necessita duma sustentação de engenharia, também a escultura necessita de se precaver da força da gravidade e da fraca resistência de alguns materiais de que é feita. Em algumas culturas e épocas, a escultura tendia para o bloco, para resistir às agressões do meio. Em períodos "clássicos" em que a escultura tendia para o realismo, havia que arranjar estratagemas para que os elementos frágeis e mais facilmente fracturáveis e destacáveis obtivessem sustentação e apoio. Geralmente, elementos exteriores – panos, mantos, troncos, ramos e folhas – eram adossados aos braços, à cabeça, sobretudo às pernas, que sustentam o maior peso.
Neste caso, o braço ajuda a dar firmeza à cabeça, enquanto esta é, na prática, o maior sustentáculo do braço. Acredito que foi uma necessidade de robustez da peça que determinou um pescoço tão possante, o qual contrasta com a delicadeza do seio.
Em Lisboa ainda há boa escultura não atacada pelos vândalos. Aliás, quem a conheceu há anos percebe que terá sido objecto de cuidados de limpeza recentes. Só o descuido de algum emplumado lhes confere manchas menos dignas. Neste caso, talvez para protestar pelo seu ar vagamente andrógino...
Escultura sem título de Stella Albuquerque no Parque Eduaro VII
Canto da Maia 
Ernesto Canto da Maia (1890–1981)
Bendito seja o fruto do teu ventre (década de 40)
Museu Carlos Machado – Ponta Delgada
Há tempos, passou por Lisboa uma exposição de obras do açoriano Canto da Maia.
Gosto muito de Canto da Maia. Quem pode esquecer Adão e Eva do Museu do Chiado?
Além de Paris e Genebra, estudou em Madrid onde recebeu a influência mais marcante nas suas opções formais e estéticas da parte de Júlio António, escultor com influências de Donatello e da escultura grega pré-clássica, com uma obra de grande sobriedade formal e contenção emotiva. Transmite ao açoriano, sobretudo, a consciência duma cultura comum à bacia mediterrânica, desde os arcaísmos gregos pré-clássicos aos realismos renascentistas. A partir daqui, Canto da Maia desenvolve uma estética pessoal de despojamento formal e sobriedade expressiva dos modelados, aspectos que se revelaram percursores da «Art Deco».
Este movimento que influenciou sobretudo as artes decorativas, desenvolveu-se entre as duas guerras mundiais. As suas características derivam de vários estilos de pintura de vanguarda do princípio do século. Exibe aspectos do Cubismo, do Construtivismo russo e do Futurismo, usando simplificações e distorções, sobretudo geometrizantes. Foi considerado um estilo elegante e sofisticado.
Canto da Maia aplicou esse gosto às suas esculturas, sobretudo no tratamento dos pregueados dos panejamentos e nos sofisticados desenhos dos penteados das figuras. As suas esculturas, associando estes tratamentos a estruturas formais pré-clássicas ou clássicas, transmitem uma imagem de arcaísmo erudito de grande beleza com reminiscências primordiais e individualidade criativa.
Terracota, material no qual modela algumas das suas maiores peças, significa literalmente terra cozida. É um material que se trabalha bem, em termos de modelação, mas que exige muitos cuidados para não se desmoronar, sobretudo nas peças grandes, antes de ser cozido. A típica cor avermelhada transmite às peças uma imediata aura de primitivismo, porque estamos habituados a encontrar peças em terracota oriundas de civilizações primitivas, quer antigas, quer actuais. Usavam-na os Sumérios, os Egípcios, os Gregos pré-clássicos, os primitivos actuais.
A cor apontada com admiração por quase todos os críticos da altura, é mais um dos aspectos que transmite ancestralidade intemporal às peças. Os véus, usados como elementos simbólicos mas também decorativos, com plissados longitudinais e pregueados arredondados horizontais, acentuam a nudez e as massas carnais e fazem lembrar as vestes leves e transparentes das representações egípcias do Império Novo, mas também as gregas. Transmitem a ideia de serem tecidos pouco espessos e muito leves.
Os penteados, sobretudo na mulher, são sempre objecto de um trabalho minucioso de modelação, apresentando estruturas complexas.
Os rostos desta obra, em tensão emotiva, estabelecem um diálogo telepático, íntimo e privado. Ao espectador resta circular, estranho, à volta do par, para o qual não existe mais ninguém no Mundo. A estranheza é paradoxalmente acentuada pelo tamanho humano das figuras. São quase humanas, mas estão como que noutra dimensão inatingível pelo espectador.

A exposição de obras do brasileiro Vic Muniz, que ainda se mantém no CCB, é francamente recomendável. O mais frequente são “reproduções” de grandes obras da pintura mundial, mas elaboradas com materiais inopinados e à custa de muito muito trabalho miudinho. Há um “Naufrágio do Medusa” feito com chocolate líquido, ícones de Hollywood feitos com caviar, “A Morte de Marat” feita com lixo, um retrato de Elizabeth Taylor com brilhantes, e muitas outras imagens feitas com outros materiais inesperados como lixo do aspirador, linhas de coser, manteiga de amendoim, pigmentos em pó, pedaços de papel, bonequinhos e outros brinquedos em plástico, etc.
São obras efémeras, em geral de grandes dimensões, que após concluídas são fotografadas e destruídas. São essas, em geral grandes, fotos que são ali mostradas.


Apesar do caos em que nos afundaram e de todas as nebulosas que querem meter-nos pelos olhos dentro, convém mantermos o foco no que realmente interessa.
A adesão à Arte faz-se muitas vezes pelo lado voyeurista do espectador, mesmo que ele não tome consciência disso. Nesta peça de temática alegórica (Despertar) dum naturalismo erudito de José Simões de Almeida (sobrinho) no Jardim da Estrela a fruição visual dum objecto sensual é óbvia.
Mas esse prazer dos sentidos pode ser obtido mesmo quando o objecto tem temática religiosa, como em muitas imagens da Virgem em que o seu rosto juvenil e inocente pode despertar anseios de enamoramento,
ou em imagens de Cristo cuja nudez indefesa no Calvário pode despertar sentimentos libidinosos em mistura sado-maso mais ou menos difusa com angústias de protecção maternal.


Escultura monumental a enquadrar um dos palcos

Columbano, A Refeição (Five o'clock tea), 1896.
Obra do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro emprestada ao Museu do Chiado para a exposição dedicada a Columbano.
Talvez você pense que esta imagem é de uma tapeçaria ou de uma textura natural.
Na imagem seguinte vê-se um pormenor da mesma, em que se percebe que aquela textura visual é feita com inúmeras linhas individuais pintadas lado a lado.

A Praga
(Bartolomeu Cid dos Santos, The Plague, 2003, in CAMB)
“As massas são miseravelmente ignorantes. Não sabem que os aviões-robôs sem piloto não são seres desse mundo. De fato, são seres só espirituais. Decolam sem pista. Vivem no espaço sideral, onde ninguém os vê, muito além das fronteiras terrestres internacionais entre Afeganistão e Paquistão.
Quando têm fome, aqueles espíritos sem corpo voam, matam e alimentam-se de afegãos inocentes, mulheres, crianças. Devoram os cadáveres e voltam para suas tocas siderais, para a sesta. Até que acordam outra vez com fome, voam outra vez, matam outra vez, devoram mais cadáveres de mulheres e crianças. E voltam, outra vez, para seus hangares espaciais invisíveis. É assim todos os dias, há anos!” – A.H.Khayal
Colhido aqui: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=127761&id_secao=9

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