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Universos Assimétricos

Uma História de Agressão

27.11.06

O vilão da letra miúda ataca de novo 


Frei Carlos, Virgem do leite (pormenor), c. 1520-1530.

A apresentação de uma obra desconhecida de Frei Carlos é pretexto para apresentar uma exposição de obras de pequeno formato – obras portáteis de devoção particular – várias delas daquele pintor luso-flamengo do século XVI. No Museu de Arte Antiga até 4 de Fevereiro.

Os conjuntos de obras são contextualizados por textos em letras bastante grandes impressas na parede. Bem. Os outros textos que tratam de cada obra estão junto ao respectivo quadro. Bem. O contrário é que seria de estranhar. Estão a uma altura de cerca de 1,20 m. Enfim, já não é mau.
Mas estes textos estão em corpo Arial 10 ou à volta disso. São letras minúsculas. Para as lermos temos que invadir a área de segurança que se inicia a cerca de 60 centímetros da parede.

Pelos vistos, também esta exposição foi atacada pelo vilão da letra miúda que já tinha atacado a exposição de Amadeo, conforme post abaixo.

Alguém se preocupou com os textos que permitissem aos visitantes que o desejassem conhecer melhor cada obra. Alguém teve o trabalho de os elaborar com todo o rigor científico. E depois alguém desligou os neurónios quando se tratou de pôr em prática aquela ideia e aquele trabalho.

Vá lá, levem lá o responsável a ver se ele consegue ler aquelas legendas. E depois peçam-lhe delicadamente para as refazer para corpo 20. A ver se ele aprende.

posted by perplexo  # 02:58
Comments:
Opá o homem tem um contrato com a Multióticas. Não repareste que ao fundo da sala estava uma menina a dizer que o desconto era igual à idade?
Um abraço. Augusto
 
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24.11.06

O Papa-jornais 


Na minha rua existe uma personagem singular – um comedor de jornais. Devora todos os que encontra, quer os que são abandonados nas mesas do café, quer os que o vento empurra rua fora. Uma vez por outra já o vi debruçado pela abertura do Papelão.
Como seria de esperar, está sempre bem informado, quer das notícias do dia, quer das de véspera que já todos esqueceram. Também por isso é motivo de falatório na rua. Estranham-lhe a bizarria – dizem.

A mulher que salga sempre a comida inveja-lhe a memória. O rapaz que sonha com pescarias no tanque do fontanário diz que ele assusta os peixes com a sua maneira ruidosa de mastigar. As primas que plantam jacintos nos charcos da calçada dizem que ele não quer saber das plantas e das flores. O oriental, de cujo livro, que lê constantemente, saem, de quando em vez, pétalas coloridas, olha-o de lado com desconfiança.

Todo este mal-estar está agora ultrapassado. Esta manhã, quando saí à rua para comprar pão, as conversas tinham um tema comum nos vários grupos que fui encontrando. Todos reconheciam que o Papa-jornais era um bom homem, que a sua preferência gastronómica até era útil para o asseio do bairro e que, afinal, não era assim tão esquisito. E lamentavam-no. Parece que morreu ontem de uma indigestão de Expressos.

Comments:
Eis um risco que não corro.
Já perdi a conta dos anos que passaram desde que li o último!

(Nota à margem - Garanto que é mesmo Pedro)
 
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22.11.06

Lyrics 


A insatisfação mundial em relação às atitudes dos americanos cresceu muitíssimo com a invasão do Iraque. Isso vê-se no aumento da luta armada dos pequenos agrupamentos radicais, na propaganda e nos manifestos anti-americanos, mas também nas letras e nas artes. Está a crescer toda uma geração para quem os americanos são o mal do mundo. Com muitas e fundamentadas razões. Os americanos bem podem limpar as mãos à parede da bela obra que conseguiram fazer!
A contestação atinge por vezes grande radicalismo de discurso, como nesta canção «Fim da Ditadura» do rapper português Valete, de que transcrevo a parte final:

«(…) E à porta da Casa Branca fiquei com Bin Laden a sós
Disse-lhe sem hesitar um coche: Deixa-me liquidar o George
Ele esboçou um sorriso e olhou-me fundo nos olhos
Sentiu segurança na minha voz e passou-me uma Kalashnikov
Era só ódio destrutivo na minha cabeça
Kalash fui exibindo assim a dar paleta
Eu fui o homem escolhido pa’ ditar a sentença
Olha o meu peito erguido pa’ vingar o planeta
Entrei na Casa Branca assim cheio de moral
Nossos snipers iam abatendo a escolta presidencial, eu andava
No piso inferior de corredor em corredor
Abria porta a porta à procura daquele estupor
Vi a porta dos fundos, senti um feeling interior
Abri… até que enfim Sr. Ditador
Agora sente o pavor
Vais pagar pela tua merda e pela dos teus antecessores
Isto é pelas vítimas das guerras que vocês fabricaram
Pelas bocas que morreram pela falta de pão que vocês negaram
Pelo terror que semearam, alastraram, perpetuaram
Pelos homens e mulheres que as vossas bombas mutilaram
Pelo suor dos trabalhadores que vocês escravizaram
Pela alma deste planeta que vocês danificaram.
(Tiros)
Morre filho da puta!!!
(Tiro faz eco)»

Se quiserem ouvir a canção toda, vão aqui:

http://www.horizontalrecords.com/fim_dit.mp3

Comments:
Quem irá apunhalar o Cesar?
Um abraço. Augusto
 
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20.11.06

Amadeo, ou talvez não – sem título 

Sócrates a fazer vénias a Amadeo (pormenor de foto da revista Visão)


Estou derreado das cruzes. É que passei a tarde a fazer vénias aos quadros de Amadeo de Souza Cardoso e seus contemporâneos. E estou muito irritado por isso. Não é que eles não as mereçam – merecem-nas, a exposição é excepcional e Amadeo tem coisas muito boas – mas é que fui obrigado a fazê-las e isso irrita. Irrita porque não há nenhuma razão para me obrigarem a mim, e aos outros milhares de visitantes da exposição que está a decorrer no edifício-sede da Gulbenkian até 14 de Janeiro, a fazer tantas vénias.

É que as legendas estão colocadas muito baixas – cerca de 1 metro de altura. Não se percebe porque é que as põem tão baixas. Será por causa das crianças? Se fosse por isso, também punham os pequenos desenhos a essa altura, mas não, põem-nos a metro e meio ou coisa que o valha.
E as crianças de 1 metro já saberão ler? Talvez. E que percentagem de crianças baixas e que saibam ler e lêem é que é constituído o público visitante? Será mais adequado deixar de fora todos os crescidos que querem ler as legendas?
Se não querem prejudicar alguém, deveriam arranjar um melhor meio-termo como, por exemplo, aumentar o tamanho das letras das legendas.

Isso já ajudaria, mas seria insuficiente. As legendas estão colocadas muito longe dos quadros respectivos, às vezes 6 ou 7 metros. Estão agrupadas em blocos, correspondendo a grupos de quadros. Da legenda ao último quadro, distante vários metros, fazem-se longas caminhadas, repetidas para cada um dos outros quadros. Até ao primeiro quadro do grupo chegam a distar 2 metros desde o bloco das legendas. Uma canseira!

Não é fácil fazer corresponder um quadro a uma legenda. As legendas têm números mas os quadros, não. Não se percebe porquê.
Os blocos de legendas estão colocados quer à direita, quer à esquerda dos conjuntos de quadros, mas não se consegue perceber a relação entre as legendas e os quadros – a primeira legenda nem sempre corresponde ao quadro mais à esquerda, nem sempre corresponde ao quadro mais próximo. Um puzzle!
Não se percebe porque é que cada legenda não foi colocada junto a cada quadro. Um mistério!

Os blocos de legendas estão quase sempre colocados em zonas não iluminadas, às vezes quase no canto. Clandestinas e furtivas acabam por ganhar estatuto de obra conceptual e ganhar um imerecido protagonismo pelas piores razões. Irritam o visitante. Porque não se conseguem ler sem um grande esforço muscular e visual, estão longe dos quadros que deveriam identificar e confundem o visitante sobre que quadro identificam. Uma confusão!

Será que os organizadores decidiram que os visitantes se deviam concentrar nas obras, sem a distracção das legendas? Já não digo nada!
Mas, se alguém tentar ver a exposição sem um acompanhamento mínimo das legendas, ainda que penoso, vai ter a surpresa de entretanto perceber que há muitas obras de contemporâneas de Amadeo misturadas com as obras dele. Terá andado deliciado a apreciar obras alheias, atribuindo-as a Amadeo. Uma desinformação!

Que pena, uma exposição tão importante ser «arruinada» por algumas decisões infelizes! Não merecia que alguém apresentasse tão negligentemente a informação sobre as excelentes obras expostas.
Esta gente não faz formação?

Ainda assim, não percam a exposição. Mas reclamem!

Comments:
Grande Homenagem a Augusto Pinochet Ugarte já publicada !
A Verdade sobre o Patife do Allende
En el año 1972 el Pleno Socialista declaraba:

"El Estado burgués en Chile no sirve para construir el socialismo y es necesaria su destrucción".
"Para construir el socialismo de los trabajadores chilenos deben ejercer su dominación política, deben conquistar todo el Poder. Es lo que se llama la dictadura del proletariado".
"Para los revolucionarios, la solución no está en esconder o negar el objetivo de la toma del Poder".
"Rehuir el enfrentamiento o moderar la lucha de clases constituye un gravísimo error".
"Para los socialistas cada pequeño triunfo eleva el nivel del próximo choque. HASTA QUE LLEGUEMOS AL MOMENTO INEVITABLE DE DEFINIR QUIEN SE QUEDA CON EL PODER EN CHILE".



" Yo hubiera querido recibir la Argentina como Aylwin recibió a Chile."
Presidente Carlos Menen

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17.11.06

Dignidade – um exemplo 


De visita à Turquia, Zapatero frisou que a Espanha sofreu um brutal atentado em 11 de Março, mas reagiu através da justiça, prendendo os implicados que descobriu, e não renegando os valores civilizacionais que até então defendia.

Foi uma bofetada de luva branca a países como os Estados Unidos cuja reacção envergonha toda a raça humana, chacinando inocentes a torto e a direito e espezinhando todos os valores civilizacionais hipocritamente alardeados.

É claro que o excesso de poder corrompe e o facto de os Estados Unidos não terem quem lhes faça frente, em guerra convencional, torna-os brutais e arrogantes. E a arrogância é inimiga da sabedoria.

15.11.06

A carta anónima 


Esta manhã, ao levantar-me, deparei com a seguinte mensagem, junto à porta, escrita com palavras recortadas de jornais e coladas num pedaço de papel: «/ milhões / anjinhos / fizeram / visita / capataz / Bicicleta / das mulheres / “aparece” / em saquinhos /».

Enigmática como é, não lhe liguei grande importância. Teria sido, com certeza, composta por algum grupo de miúdos desocupados tentando divertir-se à custa dum vizinho. Espreitei pela janela do quarto a ver se descortinava os malandrinhos alapados por detrás de algum arbusto. Ninguém. Atravessei o corredor e espreitei pela janela da sala. A rua estava deserta, ou antes, com os esporádicos passantes habituais. Nem sombra dos catraios.

Sentei-me no sofá e atentei melhor neste conjunto de palavras alinhadas no papel. Seria algo a levar a sério? Ná! Parecia tão desconexo, sobretudo a segunda frase.
De repente, um sobressalto. Pareceu-me detectar uma ameaça, velada mas grave. «Anjinhos» remete abertamente para a outra vida, ou antes, a morte. E uma bicicleta retalhada em pedaços e entregue em saquinhos pareceu-me uma ameaça típica da Máfia.
Senti-me empalidecer.

O tempo do verbo na primeira frase – «fizeram visita…» – fez-me temer por uma intrusão já realizada. Levantei-me de um salto e vistoriei a casa. Tudo em ordem. Aparentemente. Espreitei para o quintal. O cão também estava vivo e de boa saúde. Estava entretido a remexer a terra. Nada parecia indicar que alguém tivesse entrado enquanto eu dormia. Aliás, o cão teria dado sinal.

Parei a admirar o seu dinamismo. Havia alguma coisa de estranho na maneira como se movimentava. Talvez a sua atitude furtiva. Observei-o melhor.
Foi então que percebi que a azáfama em que estava empenhado tinha por objectivo enterrar vários pedaços de jornal, uma tesoura e um tubo de cola!

Comments:
Eheh!

Enquanto lia, já tentava decifrar a mensagem. Excelente final. Muito bem esgalhado.

Abraço.
 
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14.11.06

Rumsfeld acusado 


Um grupo de advogados americanos e alemães vai tentar levar Rumsfeld perante a justiça, fundamentalmente por diversos casos de tortura praticada pelos militares dependentes dele.

Acho bem. Mas acho pouco. Se Goering foi julgado e executado, não se percebe como é que este indivíduo, que também é co-responsável por milhares de mortos inocentes, em resultado da invasão criminosa do Iraque, não venha também a ser julgado por estes crimes. Para «que nunca mais», a condenação judicial não deve esperar pela do julgamento da História. Que, no meu entender, é certa. Mas demora.

13.11.06

Escrever direito 


Hoje, Santana Lopes, magoado, queixou-se que houve uma conjunção de forças diversas a concorrer para a sua destituição, sendo uma delas o próprio Cavaco Silva.

Haja Deus! Às vezes, a política acerta. Bendito seja o nome do senhor Silva.

Ó Cavaco fico a dever-te uma.

Comments:
Somos dois.
Um abraço. Augusto
 
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12.11.06

Best of... Novembro de 2005 


Dia de Finados

Alguns cemitérios de Lisboa são lindíssimos. Têm avenidas bordejadas de «palacetes», muitas flores e algum silêncio. Têm uma arquitectura que, ao longo dos tempos, reflectiu a arquitectura dos vivos. E melhor preservada que a de Lisboa. É que nesta cidade dos mortos não é necessário deitar jazigos abaixo para construir bancos e centros comerciais. Alguns destes jazigos são autênticas esculturas arquitecturais. É nos cemitérios, talvez, que existe a maior concentração de escultura por hectare. Alguma, de grande qualidade.
Um passeio por um cemitério lisboeta é, quase de certeza, mais tranquilizante e culturalmente mais estimulante que um passeio por muitos jardins da cidade.

Estes cemitérios têm ritmos próprios. Cada talhão de enterramento passa por um alvoroço de abertura de covas e montões de coroas de flores que evolui durante umas poucos semanas ou meses em linhas paralelas ao longo do talhão. Aos poucos, as linhas revoltas vão evoluindo para um aspecto arrumado, pincelado de lajes de mármore e floreiras multicoloridas. Chega um momento em que todo o talhão se arrumou e mantém um aspecto muito estável durante 5 anos, com os mármores alinhados entremeados por um ou outro monte de terra dos de menos posses, cada um com a sua floreira. Às vezes, com uma ou outra placa de mármore com inscrições do tipo «Grand-maman Je ne t’oublierais jamais».
Muitas vezes, esses talhões de meio hectare de área estão circunscritos por um quadrilátero de gavetas embutidas num muro nas quais, mais tarde, serão depositados os pequenos caixões contendo apenas os ossos lavados e desinfectados dos corpos que tenham atingido o estado necessário ao levantamento.
Estar sozinho num desses talhões a observar a extensão florida agitada pela aragem e a ouvir a vibração das centenas de pequenas floreiras metálicas, faz-nos sentir num universo distinto do nosso. São prados artificiais, «prados» de flores cortadas e de flores de plástico inseridas em floreiras, numa densidade e numa multiplicidade de cores que nem a Natureza produz.
Depois, passados os 5 anos, os talhões começam a ser escalavrados pelos levantamentos avulsos que deixam uma paisagem desoladora semeada de crateras rectangulares por entre as campas intactas cujos ocupantes se atrasaram a atingir a decomposição total. Passado algum tempo, tudo recomeça e o talhão recobra a «vida» florida, (se de vida podemos falar), para mais um ciclo de enterramentos.

Aos Domingos, os ciganos instalam-se todo o dia no cemitério a honrar os seus mortos. Pintaram de branco a moldura da gaveta onde está o caixão e o chão do passeio por baixo da gaveta. Mantêm-se por ali a limpar a gaveta, o caixão, o pano que o tapa e depois ficam por ali sentados de porta da gaveta aberta com várias fotografias do defunto expostas e jarrinhas de flores sobre naperons brancos.
Os outros vão menos ao cemitério. E tanto menos quanto o inexorável apagamento da dor que a passagem do tempo provoca. As floreiras deixam de ter flores naturais e ficam-se pelas de plástico que «duram mais tempo». Mesmo essas são, às vezes, levadas pelo vento. No fim do Verão, a maioria das floreiras estão vazias.

Perto do dia de finados (2 de Novembro) os cemitérios enchem-se numa romaria de mãos carregadas de flores. Há pessoas de todas as idades encavalitadas nas escadas que permitem aceder às gavetas mais elevadas. Os cemitérios enchem-se de cor. Cumpre-se a «obrigação» e o ritual. É possível ouvir pelas alamedas:
- Anda cá, o 16522 deve ser para aqui!
- O João não veio cá já uma vez?
- Sim, mas já foi há muito tempo!

E a vida continua. São lindíssimos os cemitérios de Lisboa.

Comments:
Os rituais da morte nunca me cativaram. Penso que há um florescente negócio à sombra da morte dos nossos entes queridos, e nesse florescente negócio nunca me apeteceu participar. Por isso, e por outras razões de ordem particular, libertei a minha falecida mãe dos elos q a aguilhotinariam para sempre a uma caixa num cemitério. Para mim foi como se a libertasse. Enfim, crenças que tenho !
Quanto à estatuária existente nos cemitérios, digo-te que fiz uma vez, no âmbito de um curso de Heráldica, uma visita de estudo ao Cemitério dos Prazeres. Um verdadeiro mundo em paralelo com o nosso cá fora!
Beijos.
 
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10.11.06

Fil Arte 2006 

???, ??? (pormenor)

Está a decorrer, até esta segunda-feira 13, uma Feira de Arte Contemporânea na Fil no Parque das Nações, das 16 às 22 horas. Já lá fui e acho que vale a pena.

8.11.06

Rumsfeld caiu 


«Ladies and gentlemen, we got him!»

Comments:
Diz o povo:
"Depois de mim virá quem bom de mim fará!"
Quem o vem substituir é um antigo chefe da CIA.
 
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6.11.06

Os ratos 


Estive fora estes dias. Estava a precisar de me afastar para um local sossegado com a minha companheira, nem que fosse só um fim-de-semana. Um amigo meu emprestou-nos uma casa na província, no meio do campo. Mas avisou-me:
- Olha que é capaz de lá haver ratos! Se houver, espalha umas pastilhas que estão numa caixa metálica no roupeiro do quarto.

Lá fomos. O sítio é lindíssimo, a casa é antiga com o encanto das casas tradicionais mas, realmente, está infestada de ratos. Um armário da cozinha estava cheio de caganitas e restos de embalagens de víveres que o meu amigo lá teria deixado: pacotes de sumos, garrafas plásticas de refrigerantes, caixas de flocos. Mesmo as garrafas de óleo e vinagre tinham sido atacadas, assim como os rótulos das garrafas de vinho e cerveja. O aspecto da cozinha era desolador.

Procurei imediatamente o raticida e pu-lo à mão. Limpámos o melhor que pudemos a lixarada no armário e à noite, antes de adormecer, distribuí uma boa dose de pastilhas pelos cantos da cozinha, com um sentimento de rancor prestes a ser vingado.
De noite, uma vez que acordei, apercebi-me perfeitamente de um restolhar na cozinha. Virei-me para o outro lado com um sorriso consolado.

Ao romper do dia, acordei sobressaltado. Ouviam-se guinchos, correrias, ruídos vários vindos do forro da casa. Era um chinfrim enorme. Parecia que um bando de gatos perseguia os ratos, numa batalha interminável. Não parecia nada um agonizar progressivamente debilitante. Parecia até que o reboliço aumentava.

A minha curiosidade não me deixou continuar na cama. Como havia um alçapão no tecto do quarto, fui buscar um escadote e, um pouco receoso, espreitei. O que vi não pode ser transmitido por palavras. Uma dezena de ratos copulava freneticamente num desespero alucinado. Corriam. Rebolavam. Saltavam. Trocavam continuamente de parceiro. Formavam-se mesmo molhos de três ou quatro em tentativas de cópulas improváveis. No soalho jaziam já uns quatro, mortos por exaustão.

A explicação de tão macabro cenário atingiu-me então brutalmente. Encolhi-me de terror adivinhando a terrível estupidez da minha troca. Do alto do escadote olhei para a mesa-de-cabeceira. Lá estava uma barrinha azul de raticida pronta a ser tomada, se não fosse a enxaqueca providencial da minha companheira!

Comments:
Mas descobriste que a melhor maneira de matar ratos é dar-lhes uma dose reforçada de afrodisíaco.
Já pensaste em registar a patente?
Um abraço. Augusto
 
E que ta tal usar do mesmo remédio naquela casa cheia de ratos, ali ao fundo da rua de S. Bento?
Os donos do edifício - nós - agradeciamos certamente!
 
Isto é mesmo teu !!! :-))))))
Adorei ! E os ratitos, então ... nem se fala! ao menos morreram felizes !!
Beijocas
 
:))
 
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